Algumas Teorias Psicológicas Sobre CMC:


O objetivo desta seção é deixar o leitor a par das formulações teóricas feitas pelos autores a respeito da comunicação entre pessoas mediada pelo computador. O que será descrito aqui não está vinculado diretamente a uma postura teórica definida, ou seja, o leitor pode achar que está havendo uma mistura de teorias, o que na verdade reflete uma falta de coerência teórica dos autores como também reflete, mais uma vez, o fato de que este tema ainda está incipiente para a ciência, necessitando de pesquisas e trabalhos posteriores para comprovação dos resultados e para um fortalecimento e definição teórica dos mesmos.


Riva e Galimberti (1997), em seu artigo sobre psicologia do cyberespaço, relatam que os avanços tecnológicos estão mudando o foco de atenção dos computadores em si, para o que as pessoas estão fazendo com eles. O computador, então, está se tornando um meio para as pessoas se apropriarem da tecnologia e a usarem de acordo com suas necessidades.

O sinal mais evidente desta mudança é a criação de um ambiente interativo de comunicação totalmente novo: a comunicação mediada pelo computador (CMC). A difusão deste ambiente e de outros também está criando um novo espaço social, usualmente chamado de cyberespaço, que é um terreno fértil para novas relações sociais, regras e para uma nova identidade.

CMC não é descrita como interação homem-máquina ou máquina-máquina, mas sim como um processo que tem mais em comum com interações interpessoais do que com os procedimentos tecnológicos, que não reproduzem a relação pessoa-pessoa, como por exemplo, quando o computador é usado como uma calculadora (Nass and Steuer, 1993 apud Riva e Galimberti, 1997)

Para Riva e Gamberti (1997), a interação é a característica principal do cyberespaço, onde se pode construir um senso de identidade e controle. Os estudos sobre CMC estão sendo orientados para formas de interação baseadas em modelos psicossociológicos e "de sociabilidade" (conversational), mas, ao mesmo tempo, tem-se introduzido novos tipos de estruturas relacionais que, algumas vezes, diferem das descrições de interação psicossociais tradicionais.

Uma mudança importante nas condições psicossociais acarretadas pela CMC é o conceito de comunicação: o modelo tradicional da informação que passa de uma pessoa para a outra está ficando obsoleto, parcialmente devido a algumas especificidades dos ambientes eletrônicos, tal como a assimetria entre o remetente de uma mensagem e o receptor desta. Assim sendo, o primeiro ponto a ser notado nos estudos sobre CMC são os dois tipos distintos de comunicação:

Sincrônica, que ocorre simultaneamente entre dois ou mais usuários. Por exemplo: IRC, ICQ, Vídeo conferência, Jogos on-line e MUD, audio conferência.

Assincrônica, onde a comunicação não é simultânea. Exemplos: e-mail, newsgroups, fóruns de discussão, message boards e livros de visitas em sites da Web.

As CMC’s demoram mais do que uma interação face a face e também estão ausentes de algumas características de metacomunicação, como expressão facial, tom de voz, postura corporal e outras. Assim sendo, os usuários são encorajados a encontrar outras maneiras de fazer a comunicação ficar o mais completa possível. O uso de abreviações (ex: pq = porque, vc = você, blz = beleza, naum = não) ou códigos textuais simbólicos [ex: :-) para mostrar emoção positiva, :-( para mostrar emoção negativa e :-O para demonstrar surpresa] são comuns para expressar características de metacomunicação.

Levando estes dados em consideração, podemos fazer uma ponte com a atratividade da Internet em termos do que a CMC estaria reforçando no comportamento dos usuários. King (1996), em seu artigo teórico sobre vício em Internet, relata que a grande diferença existente entre o relacionamento on-line e os outros mantidos pelas outras tecnologias existentes (telefone, fax, correio) é que os valores desta nova cultura que as comunidades virtuais têm são as normas sociais que permitem, e mesmo encorajam, contatos com pessoas relativamente estranhas.

Um fator crítico para entender como uma relação interpessoal baseada no texto pode levar algumas pessoas a experienciarem conseqüências patológicas é o efeito desinibidor inerente à interação on-line. A improbabilidade de qualquer repercussão local ou na vida real devido à atividade social on-line produz um novo e pobremente compreendido fenômeno: as pessoas se sentem livres para se expressar numa maneira irrestrita. A comunicação na Internet aumenta o leque de possíveis redes sociais às quais uma pessoa pode conectar-se e adiciona elementos de diversidade que são muito atrativos para alguns.

Na Internet, as pessoas são mais seletivas sobre como elas se apresentam a si mesmas, então os tipos de diferenças entre as pessoas que poderiam inibir a formação de relacionamentos estão escondidos. Isto promove um senso de pertencer ao grupo, que só depende da capacidade de percepção do receptor.

Existe também um aspecto voyerístico na participação no cyberespaço, que pode ser mais saliente em uns do que em outros indivíduos. As pessoas podem "espreitar", participar num modo apenas de leitura nas salas de Chat ou grupos de e-mail, observando as idéias, sentimentos e interações dos participantes. Nos fóruns de discussão de assuntos mais acadêmicos, onde a norma social é a troca de idéias de pesquisa e o debate filosófico, este componente voyerístico não é uma atração significante. Em contraste com algumas salas de Chat, onde os tópicos sugeridos freqüentemente sugerem flertes ou nos fóruns criados para dar suporte emocional para problemas e dificuldades pessoais. Nestes locais, ficar à espreita significa ter acesso a informações muito pessoais de uma maneira que nenhum fórum na vida real poderia oferecer.

Young (1997a), para identificar o reforçamento psicológico que está envolvido na CMC e discutir as implicações para tratamento efetivo do uso patológico da Internet, construiu um conjunto de categorias com base em suas pesquisas.

Quando ela perguntou aos dependentes porque utilizam Chat e MUD (aplicações altamente interativas), as respostas obtidas foram: 86% dos dependentes falaram anonimato, 63% acessibilidade, 58% segurança e 37% uso fácil.

De acordo com estes dados, foram classificadas três áreas maiores de reforçamento pertencendo a estas duplas vias de comunicação: Suporte Social, Realização Sexual e Criação de Persona.


Suporte Social:

É formado na base de um grupo de usuários que se engajam numa CMC num longo período de tempo. Estabelecida uma rotina de visitar um local particular (sala de Chat, MUD, ou newsgroups) é formado então um senso de comunidade entre os usuários.

E como em todas as comunidades, esta cultura do cyberespaço também tem suas regras próprias e os usuários têm que se adaptar a elas. Porém, a CMC deixa o mundo físico para trás, formando uma reunião de pessoas vivendo numa sociedade baseada no texto. Apesar disso, a troca de palavras permite um profundo significado psicológico enquanto os laços íntimos são rapidamente formados entre os usuários on-line.

No cyberespaço, as convenções sociais de regras e cortesias tradicionais desaparecem, permitindo que num primeiro encontro um usuário possa dizer ao outro coisas de sua vida pessoal, deixando este se sentir "perto". Através desta troca imediata de informações pessoais, um pode facilmente se envolver na vida do outro que nunca viu.

Como eles se tornam mais envolvidos no grupo virtual, os dependentes aceitam mais riscos emocionais, expressando suas opiniões acerca de assuntos polêmicos, sem medo de rejeição, confrontação ou julgamento, porém foram incapazes de expressar tais opiniões na vida real, mesmo para seus cônjuges.

A formação de tais grupos sociais cria um suporte social que responde a uma necessidade das pessoas, que na vida real estão interpessoalmente empobrecidas. Em algumas circunstâncias de vida onde o contato social está limitado (donas de casa, deficientes físicos e outros). Nestes casos, é mais provável que os indivíduos utilizem a Internet como uma alternativa para desenvolver contatos sociais. Os indivíduos com um histórico psiquiátrico, por sua vez, podem estar mais confiantes em uma CMC para satisfazer suas necessidades de suporte social, dada a dificuldade que eles têm para estabelecer estes contatos na vida real somando-se a isto a facilidade de estabelecer os contatos numa CMC


Realização Sexual:

As fantasias eróticas das pessoas podem ser exercitadas quando estas se engajam em romances sexuais comumente conhecidos como Cybersex. Salas de Chat com títulos sugestivos como: Sexo, Lésbicas, Namoro, Gay e muitos outros são criadas para encorajar os usuários a se engajarem explicitamente num Chat erótico.

Usar a CMC para Cybersex foi percebido pela autora como sendo um método seguro que satisfaz os desejos sexuais sem o medo de contrair doenças como AIDS e outras.

Os usuários, ao fazerem Cybersex se sentiam, segundo Young, livres para levar a cabo impulsos sexuais diversos e eram capazes de atuar de maneira diferente das quais atuam em suas vidas reais, sem medo de repercussão.

Para aqueles dependentes que não se sentem atraentes ou mantém poucas oportunidades de encontros sexuais, foi percebido que era mais fácil "conquistar" alguém através do Cybersex, do que na vida real.


Criação de Persona:

A CMC cria um "estado" virtual onde uma pessoa pode agir em um novo papel através da criação de apelidos que podem alterar características físicas como gênero, idade, raça e outras.

Com a criação do apelido fictício, a pessoa se permite a si mesma se transformar mentalmente numa nova pessoa on-line. Na maioria dos casos, uma persona on-line é um paradoxo dela na vida real. A existência baseada no texto é qualitativamente diferente do que o mundo físico, onde status socio-econômico, gênero, idade, raça e outros aspectos têm, conjuntamente, um papel no desenvolvimento da identidade que constrói as bases das relações interpessoais. Já no cyberespaço, tais assuntos perdem suas importâncias, dado que todos os habitantes virtuais são criados iguais.

Aqueles que sofrem de baixa auto-estima, sentimentos de inadequação e desaprovação constantes por parte dos outros estão sob o risco máximo para desenvolver uma identidade on-line secreta e distinta da que possui no mundo real.

Young (1997a) destacou as duas necessidades psicológicas mais inadequadas que são satisfeitas no cyberespaço.


Personalidades desreprimidas:

Os dependentes reportaram uma sensação de serem capazes de "destrancar parte deles mesmos que foram submergidas" na sua vida real através de suas personas. No cyberespaço, uma pessoa tímida pode se tornar extrovertida, uma pessoa não sexualizada pode se tornar sexualizada etc.


Reconhecimento e Poder:

As personas permitiram aos indivíduos obter reconhecimento e atingir o poder principalmente através da criação de personagens MUD. A força da existência do personagem vai depender do tipo de MUD utilizado. Os dependentes desejam se tornar mais fortes em seus personagens, o que leva ao reconhecimento de ser um líder poderoso entre os jogadores subordinados.

A autora, então, discute que estas interações anônimas dispõem aos dependentes um mecanismo para procurar suporte social e satisfação sexual diretamente, o que leva à cultivação de personas que inspiram os dependentes a descobrir características reprimidas de personalidade e exaltar suas experiências de reconhecimento e poder. Os estados de humor derivados desta estimulação on-line agem como um reforçador positivo para o uso excessivo da Internet.

Enquanto a habilidade de se criar uma persona on-line provê aos usuários uma saída segura para satisfazer necessidades psicológicas inadequadas, a absorção mental deste novo personagem tem um papel negativo no funcionamento da vida real interpessoal e familiar.


Young & Suler (1998a), em seu artigo sobre intervenções para comportamentos desviantes e patológicos numa comunidade virtual destaca alguns pontos sobre tratamento e prevenção do uso patológico da Internet.

O foco do tratamento consiste em moderação e controle do uso. E algumas técnicas foram desenvolvidas para tal finalidade: reorganização do tempo, emprego de alerta externo (despertadores), colocação de metas, abstinência de uma aplicação em particular, uso de cartões de lembrança, inventários pessoais (sobre o que a pessoa deixou de fazer) e terapia pessoal ou grupo de suporte.

A consulta on-line pode ser benéfica na provisão de prevenção, educação e intervenção breve para uso patológico da Internet. Porém, como estes dados são baseados em casos limitados e experimentais, pesquisa adicional é necessária para explorar a utilidade exata de tal consulta on-line.

Já um outro autor, Griffths (1997), em seu artigo em que comenta o "uso viciante da Internet" por Young, ressalta alguns pontos importantes:

  1. É interessante especular o que faz com que tais atividades (IRC, MUD) sejam tão recompensadoras. Na visão do autor elas permitem a um usuário anônimo receber uma identidade social desde que não há interação face a face. Basicamente, o usuário pode aumentar a sua auto-estima e se sentir continuamente recompensado pelos outros usuários em qualquer lugar do sistema.
  2. Algumas características estruturais dos softwares utilizados poderiam promover tendências viciantes tal como características que promovem interatividade e, em alguma extensão, promovem realidades alternativas para os usuários que permitem a eles se sentirem anônimos, o que pode ser altamente recompensador psicologicamente.

Baseado nestes pontos os tópicos a seguir tratam das descrições dos softwares e serviços freqüentemente utilizados na Internet para Chat e MUD, que são os serviços de CMC mais facilmente acessíveis aos usuários e que não precisam necessariamente de outros equipamentos além do microcomputador conectado à Internet.


[Principal] [Sobre o Autor] [Textos] [Pesquisas] [Contato]

psicologia